Acondicionando desovas para Diapausa - parte I



Inicialmente é preciso conhecer o período necessário para que os ovos completem o processo de embrionagem (Diapausa) em cativeiro. Este período está ligado diretamente a três fatores: a temperatura, a umidade do substrato e a espécie.

1 - a temperatura diz respeito a região e a estação do ano na qual se esta trabalhando (reproduzindo) a espécie. Quanto mais baixa for a temperatura, maior será o período necessário, e ocorrerá o inverso com relação a temperaturas mais altas, chegando em algumas espécies a completar o ciclo em um período inferior ao normalmente necessário a mesma.

2 - a umidade do substrato será calculada levando-se em consideração a localidade, a estação do ano e a espécie a qual se esta trabalhando.

2A - a localidade deverá ser considerada principalmente pela temperatura e a umidade relativa do ar que apresenta em cada estação do ano. No Rio de Janeiro temos um clima com temperaturas que variam de amena a alta, e a umidade relativa do ar variando de média a baixa. Em São Paulo vamos encontrar temperaturas que variam de média a baixa, e a umidade relativa do ar normalmente alta, e mesmo quando existe uma alta considerável da temperatura, a umidade do ar se mantém alta, produzindo assim uma atmosfera quente e úmida, ao contrário do Rio de Janeiro. No Rio Grande do Sul encontramos temperaturas baixas e a umidade relativa do ar alta, mesmo nos meses de Primavera e Verão.
Portanto, de acordo com este quadro, devemos manter, em primeira linha, um maior índice de umidade no substrato, para o Rio de Janeiro, e diminuir progressivamente este índice em relação a São Paulo e Rio Grande do Sul.

3 - a espécie escolhida para reprodução, terá papel importante para o equilíbrio destes itens ora analisados, pois senão vejamos.

O período de embrionagem (Diapausa) será estabelecido em relação a espécie a ser trabalhada (desova), portanto devemos saber os períodos relativos a cada espécie. Pela experiência que se possui, ficou estabelecido os períodos abaixo relacionados como válidos a cada espécie específica, para trabalho de reprodução no Rio de Janeiro; para os demais estados deverá ser feita a devida adaptação, com base nos parâmetros citados.

Leptolebias - os peixes que compõem este grupo são Killifishes anuais aradores, e seus biótipos possuem características diversas, de acordo com sua localização, estando os mesmos distribuídos entre áreas de floresta (L. fluminensis, L. marmoratus, L. sandrii, L. aureogutatus e L. leitaoi), áreas de baixada (L. nanus, L. minimus e S. damascenoi) e áreas de restinga (L. citrinipinnis e L. cruzi).

Simpsonichthys e Nematolebias - a exemplo das anteriores, encontram-se distribuídas nas três áreas citadas, estando as do Rio de Janeiro localizadas nas áreas de restinga (S. constanciae e N. whitei) e baixada (N. papilliferus). Quanto as Cynolebias do sul, aconselho a leitura de As espécies do gênero "Cynolebias" Steindachner, 1876 encontradas e descritas para o Uruguay, até o ano de 1986, de autoria de Juan J. Reichert, onde encontraremos as características inerentes a cada espécie e a seus biótopos, em cada estação do ano, o que dará possibilidades de comparação com as demais espécies e também uma idéia global da importância destes peixes dentro do ciclo natural de vida.

- Nothobranchius - sobre estes Killifishes nunca é demais falar, por sua diversidade de espécies e o colorido peculiar a cada um, o que torna difícil escolher o mais bonito. Habitam a costa leste da África, desde a Somália até a África do Sul, sendo encontradas algumas espécies mais para o interior do continente. São Killifishes anuais aradores, e seus biótopos são de baixada (savanas), com grandes variações de características, como por exemplo vamos encontrar próximo ao litoral, biótopos com acentuado grau de umidade no período seco (Diapausa) e outros formados por acúmulo de água de chuva em plantações de coqueiros, que ao secarem apresentam baixo grau de umidade; biótopos mais ao interior do continente, apresentando alto nível de salinidade, e biótopos localizados em ilha, onde ocorre secagem parcial do mesmo, apresentando variações de umidade dentro do mesmo biótopo. Apesar de toda a diversidade de características, considero os Nothobranchius como os Killifishes anuais mais fáceis de reproduzir em cativeiro.

- Rachovias - são peixes bastante resistentes, legítimos Killifishes anuais mergulhadores e ótimos para reprodução em cativeiro, produzindo ovos grandes e resistentes que darão origem a alevinos muito resistentes. Suas origens são as florestas tropicais da Colômbia e Venezuela, muito úmidas devido ao alto índice de chuvas, que fazem transbordar os diversos rios da região, cujas águas irão formar poças (biótopos) no interior das florestas, onde o solo é constituído por matéria vegetal (galhos, folhas e raízes decompostos), cuja diferença em relação aos biótopos de floresta do Rio de Janeiro, diz respeito a formação dos mesmos (transbordamento dos rios) e o índice de umidade que é muito mais elevado que o nosso.

Como pode se notar pelas características acima citadas, sobre alguns Killifishes anuais, é importante a origem de cada espécie, para um perfeito preparo do substrato contendo os ovos, quanto ao período de Diapausa, pois da relação umidade e período, dependerá o sucesso do trabalho. Como referencia e apoio ao mesmo segue uma tabela contendo as espécies mais conhecidas de Killifishes anuais, período base para Diapausa programada, os períodos (variações média) em cada estação do ano e o índice de umidade do substrato em relação a cada espécie, observando-se que os números apresentados são resultado de trabalho efetuado no Rio de Janeiro, com utilização do substrato "ideal" (turfa c/sphagnum).

Tabela de período (dias) e índice de umidade do substrato,
em relação as espécies e a estação do ano.

Espécie Período base Outono Inverno Primavera Verão Umidade do substrato
Austrofundulos sp 50 55 60 55 45 muito alta
Cynolebias sp 60 65 70 55 50 (*)
Moema sp 60 65 60 60 55/60 média
Neofundulos sp 50 55 60 55 45 muito alta
Nothobranchius sp 45 50 60 45 35/40 baixa
Pituna sp 70 70 75 65 60 média
Pterolebias sp 65 65 70 60 60 média
Rachovia sp 65 70 70/75 65 55/60 muito alta
Trigonectes sp 50 60 70 50/55 45 média

Observações:

(*) As "Cynolebias" (Simpsonichthys, Nematolebias, Leptolebias, Campellolebias, Plesiolebias, Austrolebias, Maratecoara, Cynopoecilus, Megalebias, Stenolebias), pela diversidade de biótopos que habitam, terão o índice de umidade do substrato variando dentro dos parâmetros apresentados, a saber:

- áreas de floresta - será observado um índice que irá variar entre médio e alto, isto relacionado diretamente ao inverno (frio) e ao verão (calor). Para o inverno forte utilizaremos um índice de umidade médio, e para o verão forte usaremos um índice alto.

- áreas de baixada - o índice de umidade será baixo em todas as estações do ano. Será necessário maior cuidado com relação ao período (dias) de Diapausa, para que não sejam ultrapassados os prazos constantes da tabela, principalmente no final da primavera e durante o verão.

- área de restinga - o índice de umidade será médio em todas as estações do ano, tendo-se o cuidado nos períodos de Diapausa referentes ao inverno e verão, para que não seja o substrato reidratado antecipadamente no inverno ou posteriormente no verão.

Para as demais espécies, as variações nos índices de umidade do substrato seguem o mesmo padrão utilizado para as "Cynolebias", e as variações nos períodos (dias) de Diapausa, relacionadas ao inverno e verão, estão na seguinte proporção. Para um inverno forte usa-se o período maior, e para um verão forte usa-se o período menor.