Para que se tenha sucesso na reprodução dos Killifishes, é necessário conhecer as características reprodutivas da espécie escolhida.
Inicialmente devemos ter em mente que os Killifishes, quanto ao sistema de reprodução, dividem-se basicamente em três grupos: não anuais, semi anuais e anuais.
Os Killifishes designados por não anuais são peixes ovíparos, que em seu habitat efetuam a desova nas raízes das plantas, normalmente próximo à superfície d'água, não fazendo guarda a desova, cujos filhotes nascem por volta de três semanas.
Os Killifishes designados por anuais, são peixes ovíparos que em seu habitat efetuam a desova no substrato (lama do fundo da poça) do biótopo em que vivem, sendo estes ambientes aquáticos de características temporárias que inundam no período das chuvas, secando completamente durante a fase de estiagem. Estes Killifishes são encontrados no continente Africano e no continente Sul Americano.
Os Killifishes designados por semi anuais, são peixes ovíparos que em seu habitat efetuam a desova nas raízes das plantas, a exemplo dos Killifishes não anuais ou no substrato do fundo do biótopo, a exemplo dos Killifishes anuais. O processo reprodutivo desenvolvido pelos mesmos, dentre os dois citados, dependerá dos parâmetros apresentados pelo biótopo em que habita a espécie.
Outra característica a ser considerada, também com relação a desova, relativa aos Killifishes anuais, diz respeito a maneira pela qual os ovos são depositados no substrato. Os Killifishes anuais têm, basicamente, duas maneiras de desova, as quais os denominam como, Killifishes anuais aradores e Killifishes anuais mergulhadores.
Os Killifishes anuais aradores efetuam a desova junto à superfície do substrato, isto é, o macho após efetuar o ritual destinado a chamar a atenção da fêmea, terá esta posicionada ao seu lado junto a superfície do substrato, quando então o mesmo, utilizando seu corpo, preciona o corpo da fêmea contra o substrato, formando uma pequena cavidade sob seus corpos, onde é depositado o ovo, e logo após o casal se retira bruscamente, ocasionando o levantamento de parte do substrato, que irá se depositar sobre a pequena cavidade, cobrindo a mesma e consequentemente o ovo. Este processo se repete várias vezes durante um dia e por todo período de vida reprodutiva do casal, o que tem início na maturação sexual e termina com a morte dos mesmos.
Os Killifishes anuais mergulhadores efetuam a desova no substrato, porém não na superfície do mesmo, como os Killifishes anuais aradores, e sim mergulhando (literalmente) no substrato, depositando seus ovos em camada mais profunda do mesmo.
O processo reprodutivo dos Killifishes anuais mergulhadores, foi descrito com detalhes em um trabalho do prof. Antenor Leitão de Carvalho, intitulado "Notas para o conhecimentos da biologia dos peixes anuais", publicado na Revista Brasileira de Biologia, 17 (4) : 459 - 466 - Dezembro, 1957, e republicado dez anos após (Dezembro, 1967) na revista O Aquarista, que era o órgão de divulgação da Acapi (* ).
Na segunda metade do trabalho, o prof. Antenor Leitão de Carvalho descreve as observações efetuadas, em cativeiro, de um grupo de Nematolebias whitei Myers, 1942, coletadas em um biótopo que de acordo com a localização citada no trabalho, trata-se da localidade de Barra de São João, e o biótopo o mesmo no qual o Coronel White coletou em 1941, os exemplares que serviram como tipos para a descrição da espécie. Em sua descrição o prof. Antenor Leitão de Carvalho conta que o macho nadava junto ao fundo, acompanhado pela fêmea, como que inspecionando o substrato. Encontrando o local propício ele colocava-se em posição oblíqua, de aproximadamente 30 graus da vertical, com a cabeça para baixo, enquanto a fêmea adiantava-se e colocava a cabeça entre o corpo e a nadadeira peitoral do macho, apoiando a ponta do focinho na "axila" do mesmo e ambos com um movimento conjugado, penetram fundo no sedimento. Logo em seguida a esse mergulho deitam-se no interior do substrato com um movimento rotativo dos corpos, sobre um dos flancos, ficando a fêmea sempre por baixo e totalmente enterrada. Passado cerca de 15 segundos, ambos se retiram do substrato e prosseguem na busca de outro local para a postura de outro ovo.
No decorrer da observação do processo acima descrito, algo chamou a atenção do prof. Antenor Leitão de Carvalho, que assim descreve:
Intrigado com o fato da fêmea colocar a cabeça entre a nadadeira peitoral e o corpo do macho, poucos instantes antes de mergulharem, e que o macho não efetua o mergulho sem que ela tenha tomado aquela posição, procedemos a um rigoroso exame naquela região do macho, afim de verificar se havia alguma estrutura especial que justificasse o procedimento de ambos.
Constatamos então, que na face interna das nadadeiras peitorais os oito primeiros raios, a contar de cima para baixo, estão providos de papilas táteis, as quais indicam ao macho, que segue sempre na frente ocupado no exame do terreno, que a fêmea está pronta para o mergulho, e que está à sua direita ou à sua esquerda.
Estas papilas táteis constituem mais um caracter sexual desses peixes, neste caso permanente, porque até os machos jovens as possuem.
As características citadas são de extrema importância para a reprodução dos Killifishes, tanto na escolha da espécie a ser reproduzida, como principalmente na montagem do aquário que servirá como biótopo de reprodução, no que diz respeito ao local onde serão depositados os ovos.
* Associação Carioca de Aquariofilia Piscicultura e Ictiologia