BOLETIM DO MUSEU NACIONAL
NOVA SERIE
RIO DE JANEIRO - BRASIL
ZOOLOGIA - N º 201 - 11 de maio de 1959
(Pisces - Cyprinodontidae-Fundulinae)
(com 2 figuras)
Em fins de abril p. p., meu amigo José Boitone trouxe-me de Brasília, onde trabalhava na construção do Jardim Zoológico da nova capital, material herpetológico por ele coligido na área destinada àquele Jardim.
Misturado com esse material vieram 7 peixinhos que, a primeira vista, me pareceram pertencerem ao gênero Cynolebias. Examinando-os, porém, com mais atenção, vi que lhes faltavam as nadadeiras pelvianas.
Após essa constatação cresceu-me o interesse por eles, pois na América do Sul, ciprinodontideos sem nadadeiras pelvianas, são apenas conhecidos os do gênero Orestias, que são endêmicos nos lagos pampas andinos do Chile, da Bolívia e do Peru, em altitudes que variam de 2.600 a 5.000 metros.
Esses peixinhos de Brasília também vivem em planalto, mas em condições um tanto diversas: em poças temporárias, em vez de lagos, e em altitudes de apenas 1.100 metros.
A subfamília Orestinae constituída pelas variadas formas do gênero Orestias, difere das outras subfamílias de Cyprinodontidae, entre outros caracteres, pelas ausências das nadadeiras pelvianas, dos parietais e pelas epipleurais, que são bífidas.
Os espécimes de Brasília pela sua estrutura anatômica, exceto no que diz respeito a ausência das nadadeiras pelvianas, enquadram-se perfeitamente na tribo Rivulini de Myers (1931), constituindo um gênero e uma espécie novos afins de Cynolebias.
Espécie-tipo: Simpsonichthys boitonei sp. Nov. (1)
Simpsonichthys é um membro da tribo Rivulini, porem sem nadadeiras pelvianas. Corpo alongado e comprimido, sua maior altura esta contida mais de quatro vezes no comprimento total. A nadadeira dorsal nos machos esta implantada sobre a origem da anal e o seu comprimento basal é maior que o desta ultima. Nas fêmeas o comprimento basal da nadadeira dorsal é menor que o da anal e sua origem é posterior a desta ultima. As nadadeiras peitorais, nos machos, tem os raios medianos longos, ultrapassando o 4º raio da anal e nas fêmeas, não atingem a papila urogenital. Caudal arredondada. Fêmeas com barras transversais escuras e pintas negras nos flancos, como as do gênero Cynolebias.Pedúnculo caudal normal, não afinando no bordo inferior.
Preorbitais estreitos, parietas presentes, pseudobrânquias presentes, nadadeiras pelvianas ausentes; dentes vomerinos constituídos por um único dente fino e cônico, implantado no centro do bordo anterior do vômer. Premaxilares protáteis. Dentes dos pré-maxilares e dos dentais em faixas relativamente largas,
(*) Bolsista do Conselho Nacional de Pesquisas
(1) Dedico o gênero ao meu amigo Sr. Charles J. Simpson, de São Francisco, Califórnia - U.S.A. e a espécie ao Sr. José Boitone.
constituídas dos dentes pequenos, finos e curvos, exceto os externos, que em ambas maxilas são grandes, cônicos e dispostos espaçadamente nos bordos externos dos dentais e premaxilares. Dentes dos faringeanos longos, cônicos, retos e contíguos. Fenda da boca, quando fechada, forma um ângulo reto com os sulcos preorbitais, que são verticais e dão encaixe a mandíbula, que é angulosa. Focinho muito curto. Membrana opercular livre do istmo.
Coluna vertebral composta de 26 vértebras mais o hypural; 11 vértebras abdominais, 15 caudais e mais o hypural. Epipleurais simples. Onze (11) pares de costelas; a que corresponde a 1ª vértebra é flutuante. A nadadeira dorsal, nos machos, origina-se entre as apófises das 6ª e 7ª vértebras e termina como a anal, cuja origem esta entre as apófises das 8ª e 9ª vértebras e entre as apófises 18ª e 19ª . Dorsal com 5 raios anteriores a origem da anal.
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| Sexo e número dos espécimes |
♂
9.012 |
♀
9.013 |
♀
9.014 |
♂
9.015 |
♂
9.016 |
♂
9.017 |
♂
9.018 |
| Comprimento total | 26 | 23 | 23 | 26 | 24 | 26 | 25.5 |
| Comprimento até a base da caudal | 20 | 18 | 18 | 20 | 18 | 20 | 20 |
| Comprimento da base da caudal | 07 | 03 | 3,5 | 07 | 06 | 6,5 | 6,8 |
| Comprimento da base da anal |
05 |
3,8 |
04 |
5,2 |
4,9 |
5,2 |
5,1 |
| Largura do pedúnculo na base da caudal |
2,5 |
2,2 |
2,2 |
2,5 |
2,2 |
2,5 |
2,5 |
| Largura da base da peitoral |
1,5 |
01 |
01 |
1,5 |
1,2 |
1,2 |
1,2 |
| Comprimento da ponta do focinho a origem da dorsal |
09 |
11,8 |
11 |
9,5 |
8,9 |
9,5 |
---- |
| Comprimento da ponta do focinho a origem da anal |
11 |
10,9 |
10,8 |
11 |
10 |
11 |
---- |
| Comprimento do pedúnculo caudal |
04 |
3,5 |
04 |
04 |
04 |
04 |
04 |
| Comprimento da cabeça |
06 |
5,5 |
5,5 |
5,5 |
5,8 |
06 |
06 |
| Altura da cabeça no occiptal |
4,5 |
4,2 |
4,5 |
05 |
4,9 |
05 |
4,6 |
| Maior largura da cabeça |
04 |
3,5 |
03 |
3,5 |
3,3 |
3,5 |
04 |
| Diâmetro dos olhos |
02 |
1,5 |
1,5 |
02 |
1,9 |
02 |
---- |
| Espaço interorbital |
02 |
02 |
02 |
02 |
02 |
02 |
---- |
| Comprimento do focinho |
01 |
0,9 |
01 |
01 |
01 |
01 |
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| Maior altura do corpo |
5,2 |
05 |
05 |
05 |
05 |
06 |
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Contagem dos Raios e Escamas
| Sexo e número dos espécimes |
♂ 9.012 |
♀ 9.013 |
♀ 9.014 |
♂ 9.015 |
♂ 9.016 |
♂ 9.017 |
♂ 9.018 |
| Numero de raios da dorsal |
23 |
14 |
14 |
23 |
23 |
23 |
21 |
| Número de ordem dos raios mais compridos da dorsal |
18-19-20 |
---- |
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---- |
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16-17-18 |
| Número de raios da anal |
19 |
16 |
17 |
19 |
17 |
18 |
18 |
| Número de ordem dos raios mais compridos da anal |
13-14-15 |
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13-14-15 |
| Número de raios das peitorais |
13 |
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13 |
| Números de raios da caudal |
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26 |
| Número de raios principais |
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18 |
| Número de raios branquiostegais |
06 |
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06 |
| Número de escamas na linha lateral |
24 |
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| Número de escamas na linha transversal |
10 |
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| ♂ | D. | 4/23, 1/21 | A. | 1/17, 2/18, 2/19 | D. | 21 – 23 | A. | 17 – 19 |
| ♀ | D. | 2/14 | A. | 1/16, 1/17 | D. | 14 | A. | 16 – 17 |
Simpsonichthys boitonei sp. nov.
Holótipo: M. N. nº 9.012 - macho adulto medindo 20 mm de comprimento do focinho a base da caudal.
Cor do exemplar em álcool
Corpo pardo oliváceo com a parte superior da cabeça e dorso denegridos.
Com relação aos peixes anuais da Baixada Fluminense, W. Ladiges, em Die Aquarien-und-Terrarien-Ztschr. (DATZ), de 1 de março de 1958 (XI.3, pp. 76-77), descreve uma nova espécie de ciprinodontídeo, que colocou no gênero Pterolebiasde Garman (1895), denominando-a P. elegans. Os espécimes provieram da região de Cabo Frio, E. do Rio de Janeiro e foram coligidos pelo Sr. H. Griem, negociante de peixes para aquário, que os enviou a firma Aquarium Hamburg.
(2) Esse trabalho saiu com incorreções que não existiam no manuscrito, portanto, da responsabilidade do editor; visto não terem vindo as mãos do autor as provas tipográficas. A maior delas esta na página 461 onde trata da enumeração das espécies do subgênero Leptolebias Myers 1952. Onde se lê: 1 - melanotenia Regan, 1912 etc.... leia-se 1 - marmoratus Ladiges, 1934. E. do Rio, Brasil, Imp. 1933.
Em 1957 fui visitado pelo Sr. H. Griem, que desejava ver os exemplares que eu mantinha em aquário. Manifestou ele nessa ocasião desejo de coligir alguns espécimes. Como lhe faltassem indicações precisas do local onde poderia encontra-los, tracei-lhe um roteiro detalhado do caminho a seguir e declarei-lhe que já os havia identificado como sendo C. whitei Myers, 1942. Duvidando da minha identificação e desejando introduzir uma rendosa novidade no mercado internacional de peixes para aquário, enviou para Hamburgo exemplares vivos, que foram descritos por Ladiges. Esse autor, sem maior exame da bibliografia só fez contribuir com mais um nome para a sinonímia dos peixes para aquário.
Alótipo: M. N. nº 9.013 - fêmea adulta medindo 18 mm de comprimento do focinho a base da caudal.
Parátipos: cinco exemplares, uma fêmea M. N. nº 9.014, e quatro machos M. N. ns. 9.015, 9.016, 9.017, 9.018.
Os sete exemplares foram coligidos pelo Sr. José Boitone numa poça dágua temporária, na área reservada ao Jardim Zoológico de Brasília, futura Capital, situada no planalto central do Estado de Goiás, a 1.100 metros de altitude.
O exemplar nº 9.018 foi clorado, clarificado e dissecado a fim de serem verificados os caracteres osteológicos.
Holótipo macho - Cabeça quase tão larga quanto alta, abaulada na parte superior; corpo alongado e comprimido progressivamente, do opérculo a base da caudal. Comprimento da cabeça contido 3,2 vezes no comprimento que vai da ponta do focinho a base da caudal. Maior altura do corpo contida 4 vezes nesse comprimento. Diâmetro ocular igual ao espaço interorbital. Focinho curto.
Fenda da boca, quando fechada, forma um ângulo reto com os sulcos preorbitais, que são verticais e dão encaixe a mandíbula, angulosa. Membrana opercular livre de istmo.
A nadadeira dorsal tem origem na primeira metade do corpo e termina em ponta, produzida pelos raios 18º, 19º, 20º; o 19º é o mais comprido. A origem da nadadeira anal está na vertical, que passa pela base do 6º raio da dorsal; esta nadadeira termina como a dorsal, em ponta produzida pelos raios 13º, 14º, 15º; o 14º é o mais comprido. Nadadeiras peitorais baixas, com os raios medianos mais compridos, ultrapassando o 4º raio da anal.
Cabeça com 5 barras transversais denegridas; a primeira é pequena e passa pelo bordo anterior dos olhos; a segunda passa pelo centro dos mesmos; a terceira pelo bordo posterior; a quarta é eqüidistante da terceira e da quinta, que se alarga sobre o opérculo.
Nos flancos, 3 manchas claras estreitas, transversais, espaçadas, seguidas de duas séries longitudinais de pequenas pintas, que se originam na altura das extremidades das 3 manchas claras e percorrem os flancos até a base da caudal.
As nadadeiras são denegridas; a dorsal e a anal apresentam na base séries de pintas claras. Na dorsal a série é dupla e na anal simples.
Pelas informações pouco precisas que obtive do coletor sobre a coloração dos machos vivos, parece que eles são de cor rósea com barras e pintas azul-metálico.
Alótipo fêmea - A forma do corpo é como a do macho.
A origem da nadadeira dorsal esta na segunda metade do corpo e é posterior a da anal, assim como o seu comprimento na base é menor que o desta. A nadadeira peitoral é baixa, os raios medianos são longos, mas não chegam a atingir a papila urogenital.
Cor - A cabeça é como a do macho, ornada com 5 barras transversais; a sua face superior, o dorso e as nadadeiras também são denegridas.
Nos flancos há 13 barras transversais, entre o opérculo e a base da caudal. Os espaços claros entre elas são mais estreitos.
As 4ª, 5ª, 6ª barras, a contar do opérculo, geralmente possuem uma pinta preta no centro.
Em 1942, Myers descreveu em Stanford Ichthyological Bulletin vol. 2, nº 4, seis espécies novas de Cynolebias da Baixada Fluminense, coligidas pelo Cel. White, sendo que duas delas C. constanciae, C. whitei, provêem da região de Cabo Frio e foram descritas as pág. 105-106, respectivamente, daquele Boletim.
Descrevendo P. elegans Ladiges chama a atenção para o fato de P. elegans provir da mesma região donde foi descrito C. constanciae. Esqueceu-se, no entanto, de dizer que da mesma região foi descrita, também, na mesma publicação, porém, na página subseqüente, uma espécie muito semelhante a que estava descrevendo, chamada C. whitei. Na realidade as duas espécies são idênticas. Assim sendo, Pterolebias elegans, 1858 é sinonimo de Cynolebias whitei Myers, 1942.
Em fins de 1955 esplorei a região de Cabo Frio e São Pedro da Aldeia, em busca das duas espécies aludidas; nessa exploração e nas subseqüentes encontrei tão somente C. whitei, que é a mais comum.
Desde aquela data venho observando C. whitei, tanto em cativeiro como na natureza e o resultado de parte dessas observações publiquei na Revista Brasileira de Biologia (17(4) : 459-466(, sob o titulo: "Notas para o conhecimento da biologia dos peixes anuais". (2)
Simpsonichthys boitonei new genus and new species
The author is describing a new genus and a new species of Annual Fish (oviparous cyprinodont fish) belonging to the tribe Rivulini of the subfamily Fundalinae from the Central high flat land of the State of Goyaz - Brazil, at 1.100 meters of altitude, collected in the temporary pool in the area reserved for the Zoo of Brasilia, future capital.
Simpsonichthys is characterized by the absence of the pelvic fins and by the former position of the dorsal fin in relation to the anal fin. It is closery related to the genus Cynolebias.
The genus was named in honour of Mr. Charles J. Simpson of San Francisco, California. U.S.A. and the species for Mr. José Boitone.
With relation of the annual fish of the Baixada Fluminense, State of Rio de Janeiro, the author considers Pterolebias elegans recently described by W. Ladiges 1958, from Cabo Frio, as a synonym of Cynolebias whitei Myers, 1942.
Entregue para publicação em 24 de julho de 1958.
Carvalho, A. L. de
1957 - Notas para o conhecimento da biologia dos peixes anuais. Rev. Brasil. Biol., 17(4) : 459-466.
Eigenmann, C. H. & Allen, W. R.
1942 - Fishes of Western South America. pp. I-XV - 1-494. 1 Map. The Univ. of Kentucky
Hubbs, Carl, L.
1932 - Studies of the Fishes of the Ordem Cyprinodontes. XII. A new genus related to Empetrichthys. Occ. Papers Mus. Zool. Univ. Mich., 252:1-5, Pl. I.
1941 - Studies of the Fishes of the Ordem Cyprinodontes. XVII Genera and Species of the Colrado River System. Occ. Papers. Mus. Zool. Univ. Mich., 433:1-9.
Ladiges, W.
1958 - Eine vierte, neue Art der Gattung Pterolebias von Cabo Frio, Rio de Janeiro. Aquarien-und Terrarien-Ztschr. 11(2) :76-77
Myers, G. S.
1927 - An analysis of the genera of Neotropical Killifishes allied to Rivulus. Ann. Mag. Nat., 9(19) :115-129.
1931 - The primary groups of oviparous Cyprinodont fishes. Stanford Univ. Publ. Biol. Sci., 6(3) :242-254
1942 - Studies on SouthAmerica fresh-water fishes. Stanford Ichthyol. Bull., 2(4) :89-144
Regan, C. T.
1911 - The Osteology and Classification of the Teleostean Fishes of the Order Microcyprini. Ann. Mag. Nat., 8(7) :320-327.
1912 - A revision of the poeciliid fishes of the genera Rivulus, Pterolebias and Cynolebias. Ann. Mag. Nat. Hist., 8(10) :494-508.
Tchernavin, V. V.
1944 - A revision of the subfamily Orestiinae. Proc. Zool. Soc. London. 114 :140-233.
OBS: O texto foi editado mantendo-se a formatação o mais próximo possível do original