UM NOVO PEIXE ANUAL DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO
(Pisces, Cyprinodontidae, Rivulinae)

ANTENOR LEITÃO DE CARVALHO
Museu Nacional, Rio de Janeiro, Guanabara

          Prosseguindo as nossas coletas de peixes anuais nas poças de águas temporárias, encontramos na baixada do litoral nordeste do Estado do Espírito Santo um dos mais belos Cynolebias até hoje coligidos.

          Na região onde foram encontrados pode-se ver ainda, espalhados pelo campo, tocos e troncos carbonizados, vestígios de um desmatamento não muito remoto.

          A poça onde encontramos está situada a 18 km de Conceição da Barra, às margens da estrada que liga aquela cidade à de Itaunas. Ela está dividida pela estrada, mas as duas partes se comunicam por meio de uma manilha. A água na parte mais funda não ultrapassava de 50 cm, e o fundo era de lama preta com uma vegetação pequena e esparsa.

          Por ocasião da coleta (9-8-1969), estavam em plena faina de postura, com muitas fêmeas ovadas e alguns machos com as nadadeiras dilaceradas.

          Os exemplares que transportamos num frasco com a capacidade de 2 litros, assustados, durante a viagem, não brigaram, mas no hotel, após um pequeno repouso, os machos começaram a se degladiar, rasgando as nadadeiras , inclusive as das fêmeas, que se esquivavam deles. Isto me obrigou a sacrificá-los, por falta de vasilhame para separá-los individualmente.

          Dedico esta espécie ao Prof. G.S.Myers e este trabalho é a minha contribuição ao "Festschrift for George Sprague Myers" Promovido pelos seus ex-alunos.

Cynolebias myersi sp. n.

           Holótipo: M.N. nº 9849 macho adulto medindo 30 mm de comprimento padrão e 40 mm de comprimento total; coligido em uma poça dágua temporária às margens da rodovia que liga Conceição da Barra à Itaunas, a 18 km daquela cidade, E. do Espírito Santo, em 9 de agosto de 1969.

          Alótipo: M.N. nº 9850 fêmea adulta medindo 26 mm de comprimento padrão e 35 mm de comprimento total; coligida no mesmo local e data do Holótipo.

          Parátipos: M.N. nº 9851, 31 machos e 22 fêmeas todos coligidos no mesmo local e data do Holótipo e Alótipo.

          Diagnose: Cynolebias de corpo alongado, barrado verticalmente. As barras são largas, cor de vinho tinto Bordeaux e se prolongam pelas nadadeiras dorsal e anal são em número de 12, entre o bordo do opérculo e a base da caudal.

          As fêmeas, como a maioria das do gênero Cynolebias, são também barradas verticalmente com barras largas, porém escuras; 10 barras entre o bordo do opérculo e a base da caudal.

          Machos e fêmeas tem na base dos dois raios medianos da nadadeira caudal, em ambos os lados da nadadeira, uma pupila, que provavelmente, tem conexão com a linha lateral.

          Descrição do macho - Nadadeira dorsal com 19 raios, sua origem na vertical que passa pela base do 8º raio da anal. Anal com 23 raios. Escamas de linha lateral 27+3. Linha transversal com 10 escamas entre a origem da dorsal e a anal. Escamas pré-dorsal 16, a contar do espaço inter-orbital. Escamas ao redor do pedúnculo 14. Cabeça 3,3 no comprimento padrão. Maior altura 3,75 no dito comprimento. Olho 3,6 no comprimento da cabeça, 2 vezes no espaço inter-orbital. Focinho menor que o olho. Comprimento da base da dorsal 3,75 no comprimento padrão, o da base da anal 2,72. Caudal arredondada 26 raios. Dorsal em ponta, produzida pelos raios 11º - 12º - 13º, em ordem decrescente. Anal também, em ponta, produzida pelos raios 17º - 18º - 19º , em ordem decrescente. Nadadeiras peitorais 14-14, atingindo o 7º raio da anal. Ventrais 6-6 atingindo o 2º raio da anal. Raios branquiostegais 6+6. Caudal 26.

          Cor - Em vida os machos apresentavam uma cor de fundo metálico azul-esverdeado, com 12 barras verticais cor de vinho bordeaux. Lados da cabeça e região opercular com reflexos dourado-esverdeados. As barras verticais se estendem pelas nadadeiras, dorsal e anal. A caudal também é barrada de bordeaux e debruada dessa mesma cor. As peitorais e ventrais azuladas.

          Coloração em álcool - Parte anterior do corpo oliva-claro, as barras verticais anteriores à origem da dorsal apresentam somente vestígios e são de cor sépia amarelada, as de origem da dorsal para a caudal apresentam-se de cor castanho avermelhada intensificada daí para a caudal. Face ventral e anterior do corpo, assim como a região entre as barras, amareladas.

          Descrição da fêmea - Nadadeira dorsal com 15 raios, sua origem na vertical que passa pelo 6º raio da anal. Anal com 20 raios. Escamas da linha lateral 26+3. Escamas pré-dorsais 16. Escamas ao redor do pedúnculo 14. Cabeça 3,7 vezes no comprimento padrão. Altura 3,4 no dito comprimento. Olho 4 vezes no comprimento da cabeça, 2 vezes no espaço inter-orbital. Focinho menor que o olho. Comprimento da base da dorsal 5,1 no comprimento padrão, base da anal 3,5 no dito comprimento. Caudal, com ligeira ponta. Nadadeiras peitorais em ponta com 13-13 raios. Ventrais também em ponta com 5-6 raios. Raios branquiostepais 6-6. Caudal com 26 raios.

          Coloração em vida - Em vida as fêmeas apresentavam cor verde oliva muito clara com 10 barras verticais escuras, do bordo do opérculo à base da caudal. Uma a duas pintas pretas no meio do corpo, nas barras verticais da origem da anal e ventrais, isto é, 4a e 5a barras escuras verticais. Uma pinta muito pequena na base da caudal.

          Coloração em álcool - As fêmeas apresentam uma coloração castanho-escuro com estreitas faixas verticais amarelo claro que são justamente os espaços entre as barras verticais escuras. Nadadeiras com muito pouca pigmentação escura que é difusa.

          Myers (1955), reformulando o esquema de classificação dos chamados "Killifishes", Família Cyprinodontidae, dividiu-os em 8 sub-famílias, elevando algumas tribos à categoria de sub-família como se segue: 1) Cyprinodontinae; 2) Orestiatinae; 3) Funduolinae; 4) Rivulinae; 5) Procatopodinae; 6) Pantanodontinae; 7) Oryziatinae; 8) Lamprichthynae.

          Na quarta sub-família - Rivulinae, colocou os gêneros: Rivulus, Pterolebias, Trigonectes, Neofundulus, Cynolebias, Austrofundulus, Rivulichthys, Aphyosemion, Pachypanchax, Notobranchius, Epiplatys e Aplocheilus.

          O gênero Simpsonichthys, por nós descrito em 1959, deve ficar nessa sub-família.

SUMMARY

          The author describes a new species of the annual fish, Cynolebias Myersi, which was collected in the north-east coastal plain of the State of Espírito Santo on the road from Conceição da Barra to Itaunas, at 18 km from the former city. It is characterized by its elongated body (sub-genus Cynolebias Myers, 1952), which is vertically barred. The bars are wide and the colour like red-wine "Bordeaux" that rach from the dorsal and anal fins. They are 12 between the border of the opercle and the base of the caudal.

          The females as the majority of the genus Cynolebias are also vertically barred, but with dark and wide bars which are 10 between the border of the opercle and the base of the caudal.

          Males and females have a papilla on each side at the base of the two median rays, on both sides of the caudal fin. It probably has connection with the lateral line

          This species was named in honour of Prof. George Sprague Myers, great Ichthyologist, and this work is a contribution of the author to the "Festschrift for George Sprague Myers" , made by his ex-students.

Referencias Bibliográficas

Carvalho, A. L., 1959. Novo gênero e nova espécie de peixe anual de Brasília, com uma nota sobre os peixes anuais da baixada Fluminense, Brasil. Bol. Mus. Nacional, Rio de Janeiro, n.s. Zoologia 201: 1-10.

Myers, G. S., 1931. The primary groups of oviparous Cyprinodont fishes. Stanford Univ. Publ. Biol. Sci. 6 (3): 242-254.

Myers, G. S., 1942. Studies on South American Fresh-water Fishes. I. Stanford Ichthyol. Bull. 2 (4): 89-114.

Myers, G. S., 1952, Annual fishes. Aquarium J., 23 (7): 125-141.

Myers, G. S., 1955. The Tropical fish Magazine. March, p. 7.


OBS: O texto foi editado mantendo sua grafia original