Coletando o Aphanius fasciatus
Por Emile Farmer

fêmea de Aphanius fasciatus Laguna de Orbetello 04
fêmea de Aphanius fasciatus Laguna de Orbetello 04

No Inverno de 2003, Emile Farmer pesquisou dois biótopos na costa do Mar Negro, na Turquia, a procura de killifishes do gênero Aphanius. Ele procurava Aphanius fasciatus, um lindo killifishe do Mediterrâneo. Em viagens anteriores a Turquia ele visitou biótopos de Aphanius, inclusive do Aphanius mento e do raro Aphanius sureyanus, porém nunca conseguiu encontrar esta espécie de água salgada, em nenhum dos lagos salinos de interior, nos quais havia estado com freqüência. Precisava encontrar esse peixe em um ambiente costeiro com um corpo d'água influenciado pelo mar. A escolha do local não fora a ideal, devido ao fato de estar aproveitando a visita que fazia a alguns amigos, entretanto era certo ser no Mar Negro.

Ele acreditou estar prestes a descobrir o que considerava ser dois principais biótopos de Aphanius fasciatus, inclusive o nome do lago (Lago do Peixe) era sugestivo.

A aparência dos mesmos era perfeita, a água era salgada com diversas espécies de peixes do mar, como Goby da espécie Knipowitschia longecaudata e Neogobios ratan ratan, uma linhagem negra de peixe cachimbo (Syngnathus nigrolineatus) e cardumes do Norte Americano introduzido, Gambusia affinis.

Gambusia affinis Laguna de Orbetello
Gambusia affinis Laguna de Orbetello

As camas de cana luxuriantes e os tapetes de Ceratophylum demersum, sugeriam um excelente abrigo a qualquer espécie de killifishe ali existente, apesar de também ser habitat de rãs comestíveis de inverno (Rana esculenta), abundantes na água fresca de primavera, que chocaram com os lagos aquecendo ao sol turco, de brilho forte.

Metade do dia se passou, muitas espécies encontradas, porém qualquer killifishe fora visto, fazendo crer que se ali existisse algum Aphanius, estaria o mesmo disperso e bem escondido. O que poderia estar errado? Aparentemente eram biótopos perfeitos. Estaria muito frio? aquele local apresentava ter uma abundância de outras espécies e o peixe mosquito era muito ativo. Talvez ele não tivesse sorte quanto a localização, ou poderia ser possível que a Gambusia tivesse competido com o Aphanius. Existiria a possibilidade de ter procurado outros locais, ou existia algum bloqueio, como uma barreira geográfica ou climática, que anulava sua habilidade de colonizar estes lagos boreais? As viagens subseqüentes a Turquia, a procura desse peixe, sugeria o acontecido.

Alguns meses mais tarde, mais precisamente em março, Emile Farmer retornou ao Reino Unido e um amigo sugeriu que ele o acompanhasse a Sienna, na Itália. Sabedor que o Aphanius fasciatus tem registro de seu encontro em algumas águas na Itália, pensou na oportunidade de combinar uma viagem de turismo com a chance da procura por esse peixe tão difícil.

Paisagem da área
Paisagem da área

Porém ele não pretendia repetir seu fracasso da Turquia, mas sim fazer um planejamento seguro. Para tanto, fez uma consulta no Fishbase.com e trocou correspondência com Stefano Valdesalici (BKA) e Jesper Thorup da Associação Scandinava de Killifishes, que foi bastante amável em fornecer indicações, que confirmavam ser a laguna de Orbetello um habitat para o peixe procurado; a apenas 50 milhas das acomodações em Sienna, podia ser vista alguma esperança.

Após dois dias de visitação as surpreendentes e belas cidades de Florença e Sienna, ele sentia o desejo de ir coletar, pois ficariam em casa no dia seguinte. Logo cedo, pela manhã, partiram para Orbetello, na costa mediterrânea. A lagoa de Orbetello é propriamente constituída de duas lagunas separadas por uma estreita faixa de terra, onde fica localizada a cidade de Orbetello. Os dois corpos d'água estão entre a ilha principal e a cênica de Monte Argentário.

Posição da Laguna de Orbetello
Posição da Laguna de Orbetello

Enquanto a laguna meridional é de água doce ao natural; os corpos d'água para o norte são conectados ao mediterrâneo por um canal de 4 metros de largura, assegurando uma afluência constante de água do mar na laguna, e assim determinando sua fauna e flora. Com base nas orientações de Jesper Thorup, eles seguiram por um antigo caminho de barro, que se estendia paralelo a laguna, terminando ao norte da mesma.. Uma vegetação espessa entre eles e a água, bloqueava a visão e o acesso a mesma. Eles eventualmente encontraram um pequeno intervalo na vegetação e viram que levava a um cais de madeira.

Localidade do Aphanius fasciatus
Localidade do Aphanius fasciatus

Emile estava fascinado para ver como realmente era um verdadeiro habitat de Aphanius fasciatus. Entretanto, o que se apresentou foi um pouco surpreendente. O que superficialmente pareceu ser um lago de água fresca, em pesquisa mais apurada demonstrou não ser o imaginado. Onde estava a vegetação aquática? A vegetação espessa junto a lagoa, era detida pela falta de margem da água, assim como não existia qualquer planta aquática a ser vista.

As extremidades rasas eram guarnecidas por lixo orgânico de madeira, preso ao local por uma camada de escória. O fundo da lagoa era constituído por uma lama negra, pontilhada de conchas marinhas e uma espécie de alga, que parecia um emaranhado de fibra sintética. Além disso, a água era extremamente clara.

Ele sentiu um aperto no coração. "Como poderia encontrar killifishes ali?". Ele visitara muitos habitats salinos, mais aquilo era um ambiente completamente marítimo. Suas suspeitas eram confirmadas pelo teste de salinidade feito, tendo confirmado ser a gravidade específica da laguna igual a 0.025, que por si é mais alto que qualquer aquário marinho.

Naquele ponto ele reconheceu um enorme cardume de pequenos peixes, que ao pressentirem sua presença, fugiram em alta velocidade. Assim era o local, e ele saltou no ambiente, para logo constatar, surpreso, que a lama era quase tão profunda quanto a coluna d'água. Para complicar mais a situação, os peixes, quaisquer que eles fossem, tiveram tempo de fugir do local.

A água porém, parecia bem morna, pois o tempo incerto elevou a temperatura para um morno 21°C. Devido a insegurança experimentada, ficou a alguns pés da margem. Passou sua rede ao longo do fundo coletando um tipo marítimo de Gobies e por vezes tinha o vislumbre de outro cardume de peixes, que pareciam ser um desafio para ele ver, com dificuldade, na água mais profunda. Então, mantendo a coragem ele arriscou alguns passos para a parte mais funda, com a visão mais acostumada com o fundo. Então conseguiu notar um par de peixes mergulharem para a cobertura de algas, de uma maneira conhecida. Naquele momento Emile compreendeu que havia encontrado o Aphanius, mais como seria possível coletar os mesmos? Eles eram tão rápidos. Na segunda vez que isso ocorreu, ele mergulhou sua rede embaixo das algas e levantou para fora d'água uma grande massa entrelaçada, onde existiam três pequenas criaturas, vulneráveis, olhar confuso, mas sem dúvida eram Ciprinodontes, aparentemente presos na "fibra sintética verde". Depois de libertar os peixes daquela trama, constatou ter coletado duas fêmeas e um macho. Eles eram jovens e as fêmeas pareciam bastante com outras fêmeas de Aphanius. Podiam ser vistas algumas listras claras nas laterais dos machos.

Depois de coletar, da mesma maneira, uns 10 exemplares deste peixe e tendo ficado preso no substrato por um par de vezes, ele decidiu desistir e ir em frente, depois de, em vão, tentar lavar o barro de suas pernas, e tentar coletar na parte sul da lagoa.

O pH na laguna era de 8.4 com dureza possivelmente muito alta, em dgh 39 graus. No lado de acesso de Orbetello, para o corpo principal de água era praticamente impossível, devido a uma série de pequenos canais entre a estrada principal e a laguna. Estes eram bastante diferentes do natural, para o lado norte da laguna, com a água do mesmo turva e desagradável (poluída) com um pouco de cobertura na forma de raízes de arvore. Ele notou alguns peixes pequenos por entre as raízes, então passou sua rede ao redor deles. A rede capturou cerca de cinco peixes com 2cm de comprimento. Em rápida pesquisa os identificou como sendo "seus velhos amigos" do mar negro, as onipresentes Gambusia affinis.

Gambusia affinis e Holbrocki competem diretamente com muitas espécies de Aphanius, ajudada por sua tolerância para a água salgada, facilidade e rapidez de reprodução, vociferante (insaciável) natureza e incrível tolerância a variações de temperatura. A situação formou-se pelas introduções de massa dessas espécies por muitas águas e países, por todo sul da Europa Meridional e o Oriente Médio, freqüentemente em habitats de Aphanius.

Não foi encontrada qualquer Gambusia com o Aphanius na água clara do norte da laguna.

Isto faz crer que ali, ao contrário de outras áreas, a Gambusia é incapaz de competir com sucesso com o Aphanius, porque ali pelo menos o fasciatus era muito mais especializado para esse ambiente, altamente salino, como o mosquito, só capaz de arriscar uma existência nas margens da laguna, onde o fasciatus não era encontrado. Como Emile também gosta de tipo selvagem, ele ensacou a Gambusia juntamente com o Aphanius, pronto para a longa viagem para casa.

Em uma inspeção final dos killifishes, ele ficou um pouco apreensivo, pois eles estavam bastante magros, fracos e desnutridos, após o que deve ter sido um difícil inverno. Entretanto, como por milagre, todos fizeram a viagem, chegando a Salud. Para mantê-los, ele os colocou em uma parte fresca da casa (15°C.) e os manteve assim até o início do verão, quando acrescentou ao ambiente um aquecedor e aumentou a temperatura para 22°C., e a partir de então os machos voltaram a seu estado normal.

Ao coletarmos nossos próprios peixes, pode ser sujo, frio e por vezes (se formos desprevenidos) um exercício bastante arriscado, porém nos proporciona uma percepção fascinante de como nossos peixes vivem e interagem com seus ambientes, o que não só nos permite melhor suprir suas necessidades, como também nos favorece um entusiasmo para sua conservação.

Referências: Fishbase.com & Atlas de aquário de Baentch (Microcosmo, Mergus)

Contatos com o autor: Emile Farmer

 

Comentário.

Este excelente artigo onde Emile Farmer mostra sua paixão pelos killifishes, principalmente pelos Aphanius, nos traz o conhecimento do quão singulares e vulneráveis são seus biótopos, como também comprova, mais uma vez, a ameaça que paira sobre eles devido a introdução de espécies, as quais competem com os Aphanius, não só pelo biótopo (espaço) e principalmente pelo alimento, como também atacam seus ovos e alevinos, o que faz diminuir sensivelmente a quantidade dos mesmos, os obrigando a se adaptarem a locais de características extremas.

Parabéns Emile Farmer, pelo trabalho que desenvolve.

KilliHouse.

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