Os problemas do Aphanius fasciatus na Malta.
por Charles Zammit

A espécie de Aphanius fasciatus na ilha de Malta, corre sério risco de extinção em futuro bem próximo. Não fosse pela vida dos pássaros e a Sociedade da Natureza da Malta nos anos 80, quando os pássaros eram adaptados e a Reserva Natural era criada, bem como eram introduzidos os Aphanius em dois locais, certamente il-Buzaqq, como é conhecido na localidade, já seria uma espécie extinta da Malta.

Estas duas localidades não são os locais tipo dos mesmos. Na verdade as condições são idênticas. O fato é que esses peixes vivem em ambas águas, doce e salgada, desde que ocorra uma mudança gradativa entre as mesmas, entretanto eles preferem a água salgada. As reservas naturais possuem bloqueios terrestres, os quais impedem os peixes de migrarem para novos locais, e formarem novas populações. É grande o risco que essas reservas naturais sejam acidentalmente atingidas, o que causaria a extinção de ambas populações, e assim o Aphanius fasciatus deixaria de existir na Malta. O acidente mais provável que possa vir a ocorrer seria o envenenamento involuntário das duas reservas, com inseticidas utilizados por fazendeiros da região. Anualmente, após as primeiras chuvas fortes do outono, centenas de Aphanius fasciatus são encontrados sem vida, nas duas localidades, devido aos inseticidas e fertilizantes artificiais, especialmente a amônia, que são levados pela chuva até as reservas. Os pássaros migrarão para outros alagados, que são abundantes durante o período, e depois outras migrações ocorrerão. Entretanto os peixes estão ali confinados, sem poder escapar, e assim sua população diminui a cada ano.

No passado, Aphanius fasciatus costumava viver em quatro localidades principais, a saber: Marsaxlokk, Wied il-Ghajn, Marsa e Salina. Esta ultima costumava ser a maior poça salgada da ilha. Nos anos 50, na localidade de Marsaxlokk onde Aphanius fasciatus costumava viver, foi construído um abrigo (cais) para os barcos de pesca; a partir de então o fasciatus desapareceu daquele local para sempre.

Nos anos 80, o canal em Marsa, segundo Zammit, era o melhor local onde costumava produzir o maior e mais colorido Aphanius de todas as quatro localidades; ali o fasciatus também foi erradicado. Cilia, no Red Data Book para as ilhas Maltesas (1989) p.130, descreve que a razão para o declínio nas ações do Buzzaq foi devido a coleta indiscriminada desses peixes por aquaristas locais. Isto é completamente falso. Em primeiro lugar, nenhuma das espécies de Aphanius prosperaria com peixes tropicais, pois eles são peixes sazonais (killifishes anuais) e no inverno, eles têm que ser mantidos na água fria para sobreviverem. Secundariamente, assim que o fasciatus é coletado, ele se torna muito estressado e sufoca em poucos minutos.


O Canal de Marsa

Se esta espécie estava para ser extinta devido alguns aquaristas estarem coletando uns poucos exemplares, então o mesmo devia ter sido extinto nos anos 50 e 60, quando todos os sábados eram a ocasião em que as crianças se juntavam próximo ao canal e pegavam baldes cheios de Buzzaq, e antes de se retirarem para suas casas, os peixes já estavam mortos nos baldes. Isso ocorria no período pós-guerra e a maior parte da Malta encontrava-se ainda em ruínas, e os pais não teriam condições de comprarem brinquedos para seus filhos. Nos anos 80, as crianças tinham muitos brinquedos com que brincar e o costume de coletar peixes e girinos tornou-se algo do passado. Originalmente o fundo do canal era pavimentado com lages, e as fendas da argamassa solta e as lajes separadas ofereciam refúgio ao Buzzaq, quando ameaçado. Ainda no canal, era abundante uma espécie de alga filamentosa. Isso costumava fornecer alimento aos peixes e muitos micro-organismos, como também servia de substrato onde o Buzzaq efetuava sua desova. Entretanto, algum "inteligente" decidiu cobrir o fundo do canal com concreto, e as substancias químicas mataram as algas como também o Buzzaq. Complementando esse quadro de destruição, foi construída uma Osmose Invertida (fábrica de dessalinização) perto do matadouro, a mais ou menos 50 metros de distancia do canal, e o rejeito hiper salino da água era bombeado de volta para o canal. Isso resultou na água aparentemente muito pura, entretanto altamente prejudicial para as algas e os peixes.


Área desenvolvida de Il-Maghaluq, Wied il Ghajn

Nas águas do interior do país, (il-Maghaluq) em Wied il-Ghajn (Marsascala), existem sobrevivendo alguns espécimes, porém muito fracos, pequenos e suas cores são muito desbotadas, devido as condições ruins do ambiente onde vivem. Eles estão muito ameaçados por um grande projeto de desenvolvimento, previsto para essa área. Inclusive vários patos domésticos foram ali introduzidos, e os mesmos estão destruindo os poucos peixes e os ovos restantes.


uma visão da área pouco desenvolvida

Em Salina pode ser visto o mesmo quadro, contaminação por vazamento de drenagem, além de uma fazenda de criação de peixes, instalada em 1990 justo no local onde o Buzzaq vivia, e a partir de então nenhum Buzzaq foi mais encontrado no local.

Nesses quatro casos, notamos que o Buzzaq foi extinto de seus locais originais de procriação, não porque crianças e uns poucos aquaristas coletaram alguns espécimes. Isso teria ocorrido por cem anos. Realmente o que ocorreu foi resultado de autorizações e permissões para a construção de emissores locais, sem nenhum conhecimento do ambiente e das espécies habitantes do mesmo. Qual a situação atual? No momento é ilegal coletar, criar, comercializar e exportar esta espécie. Charles Zammit a trintas anos vem divulgando este peixe, escrevendo artigos e efetuando palestras sobre o Buzzaq e seu futuro, não apenas em seu país como também no exterior. Do dia para a noite ele se tornou um "criminoso". Ele tem que ter cuidado com quem estiver conversando, pois este poderia ser um agente do ALE, o que o levaria a ser preso. Na Malta existem quatro ou cinco pessoas, incluindo o próprio Zammit, que realmente se dedicam a esta espécie. Atualmente, eles têm que se manter no anonimato.

Quando a Sociedade de aquaristas da Malta foi fundada, em 1970, seu emblema mostrava um lutador Siamês (Betta splendens). Alguns anos passaram, e Charles Zammit apresentou uma proposta sugerindo que no emblema da Sociedade consta-se o Aphanius fasciatus. A proposta foi aceita por unanimidade. Infelizmente, muitos dos membros mais jovens nunca tiveram oportunidade de conhecer esse peixe ao vivo, não só em aquário como principalmente em seu habitat de origem.

Se um vendedor de drogas é preso com uma pequena quantidade de drogas em seu poder, e seus advogados declaram no tribunal que essa droga é para uso pessoal, o mesmo é libertado. Entretanto, se um aquarista é flagrado mantendo ou criando Buzaqq, embora ele esteja fazendo isso com propósitos científicos, o mesmo será multado. Charles Zammit tem vários contatos, todos amadores e acadêmicos, na Europa, aos quais só interessa a espécie Aphanius (existem treze espécies ao todo, ao longo da costa mediterrânea da Europa e do Oriente Médio). Entre eles Zammit menciona Hans van Es da Holanda, Herman Meeus da Bélgica, cuja vida é dedicada a espécie de Aphanius. Herman tem contatos muito bons com uma pesquisa localizada na Alemanha, e sempre que uma nova espécie é descoberta, todas as informações e material vivo que possível, é enviado ao mesmo.

A cerca de três anos, Herman enviou a Zammit quatorze ovos de Aphanius dispar de Falluja, Iraque. Zammit declara com orgulho que esta espécie continua prosperando, não só em sua casa, como também nas casas de outros três membros da MAS (Sociedade Aquarística da Malta). Herman também enviou a Zammit, a quatro anos, ovos de Aphanius mento de Kirk Goz da Turquia, e os peixes atualmente estão em um dos aquários do mesmo. Zammit também tem contato pessoal com o Dr. Jean H. Huber, Diretor no Laboratoire D'Ichtiologie, Paris, MNHN France. O Dr. Jean Huber é também Diretor do website Killi-Data.


Aphanius mento Kirk Goz

A Sociedade de Aquaristas da Malta (Ghaqda tat-Trobbijja tal-Hut) esta propondo uma regeneração do Aphanius fasciatus para as ilhas Maltesas. Como já descrito acima, é ilegal coletar, criar e exportar esta espécie. A Sociedade estará solicitando a MEPA (Malta Ambiental Autoridade) a emissão de uma licença, de forma que a sociedade seja autorizada a coletar um número limitado de Buzaqq, os quais serão utilizados na criação de linhagem da Reserva Natural de Ghadira, para o referido projeto. Posteriormente, quando o número de exemplares alcançar o previsto no projeto, esses peixes serão retornados a seu habitat. A Sociedade esta preparada para utilizar parte de suas instalações no desenvolvimento do projeto. Também existem vários aquaristas dedicados, que estão preparados para participarem. O programa se desenvolverá dessa forma: os poucos casais que forem coletados serão distribuídos a três membros dedicados (criadores). Eles serão responsáveis pela criação (reprodução) de tantos exemplares, o quanto for possível.

A reprodução e criação dos filhotes deverá ser feita nas casas dos aquaristas, pois os filhotes deverão ser alimentados com alimentação viva (náuplios de artêmias) no mínimo duas vezes ao dia. A água dos mesmos (filhotes) deverá ser trocada (parcialmente) com bastante regularidade. Não será economicamente viável que os membros da Sociedade se desloquem para as instalações do clube, no mínimo duas vezes ao dia. Não deve ser esquecido que não existirá qualquer remuneração para aqueles que tomarem parte nesse projeto; e todos têm seus empregos, famílias e casas para dar assistência.

Quando os filhotes tiverem seis semanas de idade e mais ou menos 20-25 mm de comprimento, estes serão levados para as instalações do clube e colocados em aquários grandes até completarem três meses de idade. A reprodução deverá ser efetuada na primavera e ao final do verão, e os jovens serão liberados nos habitats originais e outros locais, considerados convenientes para essa espécie habitar. Alguns casais serão mantidos nas instalações do clube pelo outono e inverno, e na próxima primavera reiniciarão a criação. Deste modo, estão pensando em reconstruir as populações do Aphanius fasciatus em torno das ilhas Maltesas, novamente.

A situação financeira da Sociedade de Aquaristas da Malta, não é muito saudável no momento. Até quatro anos passados, suas instalações estavam no complexo desportivo do Tigne, um quartel militar muito extenso e vazio, desocupado com a saída do exército Britânico. O prédio foi usado por várias razões, entre elas por abrigar alguns clubes de esportes e hobbystas. O lugar pertencia ao governo, e cada clube pagava uma taxa nominal de Lm 250.00 (E 575.00) anualmente. Naquele período o clube tinha mais de 300 membros pagantes. A situação financeira era estável, e a Sociedade abriu uma conta de depósito fixo. Então o complexo do Tigne foi demolido e em seu lugar esta sendo construída uma área para visitação turística. Ao clube coube a promessa que dentro de três anos voltará para aquele local. A Sociedade teve que arrendar (alugar) uma nova instalação (uma grande garagem) e no total para a garagem mais manutenção, eletricidade, água e telefone, a conta excede Lm 1,000.00 (E 2,300.00) O clube também gasta acima de Lm 300.00 (E 1,150.00) na mostra anual. Outras despesas incluem a impressão e postagem da comunicação mensal (boletim). Atualmente a Sociedade tem ao redor de 200 membros pagantes, incluindo a divisão dos juvenis. De honorários de sociedade, arrecada Lm 600.00 (E 1,380.00). A alguns anos a Sociedade vem fechando seu balanço com déficit, o que esta comprometendo a economia feita no passado. O governo Maltês prestou ajuda financeira em duas oportunidades, porém foi muito pouco. Os patrocinadores local variam de ano para ano, e gentilmente fazem compras; esse dinheiro é todo voltado a manutenção da mostra anual, que tem duração de 12 dias. A divisão Junior consiste basicamente de 100 jovens, cuja idade varia entre 5 e 16 anos. A Sociedade acredita serem estes jovens sua futura linhagem de sangue. Entretanto, se a atual situação financeira persistir, existirão poucas esperanças que eles continuem. A Sociedade de Aquaristas da Malta está aceitando ajuda financeira de qualquer parte, desde que sua identidade seja preservada. Estão dispostos a remeter seu administrativo e o relatório financeiro para todo aquele que venha a prestar ajuda financeira a Sociedade.

Obrigado, Charles Zammit
Em nome da Sociedade de Aquaristas da Malta (Ghaqda tat-Trobbijja tal-Hut)

**********
Parabéns Charles Zammit, pelo trabalho que desenvolve.

KilliHouse


Voltar